Redes de pesquisa da UFPA destacam integração científica e desenvolvimento regional em conferência da SBPC

As redes de pesquisa da Universidade Federal do Pará (UFPA) estiveram representadas na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), durante a conferência “Ciência em Rede na Amazônia: Integração, Soberania Científica e Desenvolvimento Regional”, realizada na quinta-feira (30), no Auditório Florestan Fernandes, Bloco D, na modalidade presencial.

A conferência foi ministrada pelo professor e pesquisador Leandro Juen, da Universidade Federal do Pará (UFPA), que destacou como a atuação em redes de pesquisa fortalece a produção científica, amplia a cooperação entre instituições e contribui para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. A atividade integra a programação da 78ª Reunião Anual da SBPC, reunindo pesquisadores, estudantes e representantes da comunidade científica para discutir estratégias de fortalecimento da ciência brasileira.

Durante a apresentação, o pesquisador ressaltou a importância da integração entre diferentes instituições e grupos de pesquisa para ampliar a capacidade de produção de conhecimento de forma colaborativa, permitindo responder de maneira mais eficiente aos desafios ambientais, sociais e econômicos da região amazônica. Segundo ele, a atuação em rede fortalece a soberania científica nacional ao promover a produção de conhecimento estratégico voltado às demandas da Amazônia. Juen enfatizou também as assimetrias históricas que ainda afetam a produção de conhecimento na região e que precisam ser resolvidas.

Para Leandro Juen, a Amazônia ocupa posição central nos debates globais sobre biodiversidade, clima, água, sociobiodiversidade e desenvolvimento sustentável. No entanto, apesar dessa relevância, a região ainda enfrenta desigualdades estruturais no acesso a financiamento, infraestrutura científica, bolsas, equipamentos e oportunidades de formação. Segundo o pesquisador, esse cenário exige uma mudança de perspectiva. “A ciência em rede não é apenas colaboração. É infraestrutura, soberania e capacidade de decisão”, destacou. Para ele, fortalecer as redes científicas instaladas na Amazônia é essencial para que a região deixe de ser apenas território de coleta de dados e assuma maior protagonismo na formulação de perguntas, na liderança de pesquisas, na interpretação dos resultados e na construção de políticas públicas.

Programas de Pesquisa  

Entre os exemplos apresentados estão o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio), que reúne mais de 20 núcleos distribuídos por diferentes biomas brasileiros, e o Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD), composto por 54 sítios de pesquisa em todo o país. As duas redes atuam de forma complementar, produzindo informações padronizadas que fortalecem a pesquisa científica, ampliam a cooperação entre instituições e contribuem para o cumprimento dos compromissos assumidos pelo Brasil na conservação da biodiversidade.

Segundo Juen, no PPBio Amazônia Oriental, do qual faz parte, os pesquisadores produzem informações sobre a biodiversidade regional, investigando quais espécies ocorrem em diferentes ambientes, como estão distribuídas e como respondem às alterações ambientais.

Já o PELD concentra esforços no monitoramento de longo prazo dos ecossistemas. De acordo com Leandro Juen, esse acompanhamento contínuo é essencial para compreender os impactos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade, permitindo distinguir variações naturais dos efeitos provocados por fenômenos como El Niño, La Niña e o Super El Niño, bem como por outras transformações ambientais induzidas pela ação humana.

Importância das redes de pesquisa na Amazônia

Na Amazônia Oriental, essas iniciativas se articulam por meio da Rede AmOr, que integra o PPBio Amazônia Oriental e o PELD AmOr. A rede conecta levantamentos de biodiversidade, monitoramento ecológico de longo prazo, integração de dados, formação de pesquisadores e pesquisa colaborativa. Juntas, essas iniciativas constituem uma infraestrutura científica compartilhada para compreender os ecossistemas amazônicos, especialmente em uma região marcada por grande diversidade ambiental, desafios logísticos e pressões socioambientais crescentes.

Outro exemplo destacado foi o INCT Síntese da Biodiversidade Amazônica (INCT SinBiAm), uma rede colaborativa voltada à integração e síntese de dados sobre a biodiversidade da Amazônia. O INCT SinBiAm reúne instituições acadêmicas e não acadêmicas do Brasil e do exterior, com o objetivo de ampliar a capacidade de análise sobre padrões de biodiversidade, ameaças, lacunas de conhecimento e possibilidades de conservação. A rede também atua na formação de novas gerações de cientistas, educadores e tomadores de decisão comprometidos com a conservação e a sustentabilidade da Amazônia.

Juen também apresentou o Centro Integrado da Sociobiodiversidade da Amazônia (CISAM) como uma plataforma de articulação entre universidades federais amazônicas e redes de pesquisa já existentes. O CISAM tem como objetivo integrar capacidades científicas instaladas na região, fortalecer o protagonismo de instituições amazônicas, ampliar oportunidades para pesquisadores e estudantes e aproximar ciência, políticas públicas, inovação e territórios. De acordo com o pesquisador, o CISAM não substitui redes como PPBio, PELD, Rede AmOr ou INCT SinBiAm. Ao contrário, busca fortalecer, conectar e dar maior visibilidade a essas iniciativas, promovendo cooperação entre universidades, grupos de pesquisa, comunidades, gestores públicos e diferentes setores da sociedade. “O desafio não é começar do zero. A Amazônia já conta com universidades, pesquisadores, estudantes, laboratórios e experiências científicas relevantes. O desafio é conectar essas capacidades de forma permanente, colaborativa e estratégica”, afirmou.

Ciência e comunidades: integração necessária

A conferência também abordou a importância da ciência produzida com participação de comunidades locais, povos indígenas e populações tradicionais. Para Juen, a pesquisa científica na Amazônia precisa avançar de modelos baseados apenas na coleta de dados para práticas de coprodução do conhecimento, nas quais as comunidades participem da definição das perguntas, do monitoramento, da interpretação dos resultados e da construção de soluções para seus territórios. Nesse sentido, o pesquisador destacou que a ciência em rede pode gerar impactos que vão além da publicação de artigos científicos. “Quando realizada de forma continuada e territorializada, a pesquisa contribui para a formação de jovens, o fortalecimento de cadeias econômicas locais, a promoção da consciência ambiental, o avanço da escolarização, a mobilidade social e a valorização dos conhecimentos produzidos na própria Amazônia”, pontua o pesquisador.

Para Leandro Juen, a ciência em rede representa um dos caminhos mais eficazes para fortalecer a pesquisa na Amazônia e ampliar sua contribuição para o desenvolvimento regional. Fortalecer a ciência amazônica é também uma questão de soberania científica. Isso não significa isolamento, mas a capacidade de colaborar em condições mais equilibradas, com liderança regional, infraestrutura adequada, financiamento contínuo e reconhecimento das especificidades da região. 

“Tratar de forma igual instituições e territórios que historicamente receberam condições desiguais não é justiça científica. É perpetuar desigualdades com aparência de neutralidade”, destacou. Ao final, a conferência reforçou que a integração entre redes de pesquisa é uma estratégia fundamental para enfrentar os desafios ambientais, sociais e econômicos da Amazônia. Para o pesquisador, programas como PPBio e PELD, redes como a Rede AmOr e o INCT SinBiAm, e plataformas institucionais como o CISAM demonstram que a Amazônia já possui capacidade científica instalada, mas precisa de mais investimento, continuidade, infraestrutura e políticas públicas adequadas à sua realidade.

A conferência integra a programação científica da 78ª Reunião Anual da SBPC e representa uma oportunidade para discutir o papel estratégico das redes de pesquisa na construção de soluções para a Amazônia, evidenciando como a cooperação científica fortalece a produção do conhecimento, a formação de pesquisadores e a formulação de políticas públicas baseadas em evidências. Além disso, reforça a importância de uma ciência amazônica colaborativa, territorializada e capaz de contribuir para a conservação da biodiversidade, a redução das desigualdades e o desenvolvimento regional sustentável. 

Texto: Ana Teresa Brasil – ASCOM Ciência e Vozes da Amazônia