Resultados foram apresentados durante o Seminário Saberes e Conservação de Territórios Indígenas, que aconteceu de 18 a 20 de junho na UFPA.

Apresentação dos resultados da pesquisa no auditório do PPGITEC da UFPA/ Foto: Danielly Silva.
Um encontro de troca entre o conhecimento científico e a sabedoria milenar indígena marcou o Seminário Saberes e Conservação de Territórios Indígenas, realizado entre os dias 18 e 20 de junho na Universidade Federal do Pará (UFPA). O evento apresentou o balanço de três anos de um inventário colaborativo na Terra Indígena Panará, localizada na Amazônia Legal, que trouxe à tona resultados impressionantes para a conservação ambiental — incluindo a provável descoberta de uma nova espécie de árvore para a ciência e um mapeamento inédito da fauna local.
A grande revelação no seminário veio da linha de pesquisa botânica. Durante o estudo minucioso de quase 500 árvores em uma parcela de um hectare na floresta, os pesquisadores se depararam com uma planta denominada pelos indígenas de “Já”, pertencente à família do louro e da canela. A análise das folhas indicou características únicas, apontando que a espécie é totalmente desconhecida pela comunidade científica global, tendo sua parente mais próxima localizada na Mata Atlântica.

Pesquisador Domingos Cardoso, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e coordenador da plataforma Flora e Funga do Brasil/ Foto: Danielly Silva.
“Descobrimos que é uma nova espécie para a ciência, que não tem nome e que a gente precisa catalogar. Mas a gente só conhece as folhas”, celebrou o pesquisador Domingos Cardoso, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e coordenador da plataforma Flora e Funga do Brasil. Com 90% de certeza sobre a descoberta, a conclusão do registro científico agora depende de encontrar a árvore com flores ou frutos, uma missão que ficará a cargo dos próprios indígenas. “Quem é que vai ajudar agora? São eles, eles que vão descobrir. Ou seja, eles que, na verdade, vão finalizar todo esse processo de catalogação e, obviamente, de conclusão”, pontuou Cardoso.
O bicho de pelo e o “Cine Bicho”

Professora e pesquisadora Ana Cristina Mendes e pós-doutoranda Giovana Oliveira que trabalharam no monitoramento da fauna na terra indígena Paraná/ Foto: Danielly Silva.
Além da botânica, o monitoramento da mastofauna — os mamíferos, chamados tradicionalmente pelos Panará de “bicho de pelo” — trouxe dados fundamentais sobre a metade sul do território. Coordenado pela professora Ana Cristina Mendes de Oliveira, do Laboratório de Ecologia e Zoologia de Vertebrados (LABEV) da UFPA, o grupo utilizou técnicas como o censo visual e o armadilhamento fotográfico.
O projeto revelou dados sobre a distribuição de antas e porcos do mato, evidenciando uma complexa relação de coexistência: ao mesmo tempo em que os porcos são a base da alimentação indígena, eles frequentemente invadem as aldeias, gerando um misto de adoração e medo.
Para devolver os resultados à comunidade, a equipe inovou ao criar o “Cine Bicho”, transformando lençóis em telões nas aldeias para exibir os animais flagrados pelas câmeras na floresta. “Isso virou um sucesso nas aldeias. E foi uma forma da gente dar um pouquinho da devolutiva do trabalho que eles mesmos fizeram”, relatou a professora Ana Cristina.
Para a bióloga e pós-doutoranda Giovana Oliveira (LABEV/UFPA), a imersão transformou a própria maneira de fazer ciência. Batizada pelos indígenas como “Tenco” (que significa “perna”, por caminhar longas distâncias na mata), ela destaca a quebra do protocolo técnico frio da academia. “Os panarás deram a visão para a gente de, inclusive, onde colocar aquela câmera, porque eles têm a vivência de onde ocorrem os animais. Eles ensinaram a gente a como ouvir a floresta e os mamíferos”, explicou a pesquisadora.
Resistência, protagonismo e o futuro do projeto
A pesquisa colaborativa, apoiada por uma parceria entre a Conservação Internacional (CI), o Instituto Socioambiental (ISA) e a Associação Indígena Iakiô, coroa uma trajetória de resiliência do povo Panará, que no passado foi retirado de suas terras originais e enfrentou o exílio no Xingu antes de reconquistar seu território.
Pysy Panará, presidente da Associação Iakiô, reforçou o orgulho do seu povo em liderar as pesquisas ao longo dos últimos três anos. “O povo Panará ficou interessado em fazer pesquisa no seu território. Esse trabalho foi bom e importante para que a gente conhecesse a parte científica das plantas e dos animais presentes em nossas terras. E isso foi muito bom para o povo Panará”, destacou Pysy, ressaltando a importância da autonomia e de estarem em Belém compartilhando esses saberes.

Pysy Panará – presidente da Associação Indígena Iakiô/ Foto: Conservação Internacional/Laryssa Gaynett
Apesar do sucesso e do forte desejo da comunidade em expandir o monitoramento para a metade norte do território — que permanece inexplorada —, o projeto enfrenta o desafio da escassez de recursos. “É uma pena que, atualmente, o financiamento esgotou. Mas a gente está com muita esperança de continuar essa pesquisa, porque tem muito mais coisa para trabalhar ainda”, alertou a professora Ana Cristina.

Equipe organizadora do evento, pesquisadores e povo Panará/ Foto: Conservação Internacional/Laryssa Gaynett
Os resultados apresentados na UFPA deixam um legado claro: diante das dimensões gigantescas da Amazônia, a ciência e o conhecimento tradicional não são excludentes, são partes indissociáveis para a salvaguarda do bioma. Como sintetizou Domingos Cardoso: “A gente aprendeu que dá para construir esse grande dicionário da biodiversidade brasileira se a gente trabalhar junto, em colaboração com quem está lá, caminhando todo dia na floresta”.