Articulação entre a UFPA e o Exército Brasileiro une ciência de ponta, soberania e infraestrutura logística para promover o desenvolvimento sustentável da região

O Painel Acadêmico da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), sediado na UFPA, reuniu pesquisadores, autoridades acadêmicas e oficiais militares para debater a pauta ambiental e seus impactos na defesa da Amazônia.
Pesquisas e dados de monitoramento recentes revelam um cenário de transição decisivo para a Amazônia: ao mesmo tempo em que a recuperação da fiscalização ambiental gerou uma expressiva queda de 36% nos alertas de desmatamento no último ciclo — correspondente ao período de 1º de agosto de 2024 a 31 de julho de 2025 —, evitando a emissão de mais de duas gigatoneladas de CO₂ e reforçando o papel crucial do bioma na regulação climática global, avaliações de governança e democracia ambiental apontam um nível crítico de vulnerabilidade para os defensores ambientais e a necessidade urgente de ampliação da transparência sobre dados territoriais, reafirmando que a conservação da floresta exige unir o combate a ilícitos com o fortalecimento da segurança das comunidades locais e o desenvolvimento da bioeconomia. Esses diagnósticos apoiam-se em dados de monitoramento e em levantamentos de instituições de referência, como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a Transparência Internacional – Brasil e o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).
Proteger a Amazônia exige, antes de tudo, compreender a sua imensidão, a sua biodiversidade e as suas dinâmicas socioambientais. Em um cenário global em que as mudanças climáticas e a sustentabilidade redefinem os conceitos de soberania e segurança, a máxima de que não se defende aquilo que não se conhece ganha contornos de prioridade nacional. O conhecimento detalhado do território amazônico deixou de ser apenas uma agenda científica para se consolidar como o pilar mais sensível da Defesa Nacional.
Aprofundar a presença do Estado na região requer a integração sinérgica entre diferentes esferas e atores sociais. Dentre elas, a pesquisa acadêmica de ponta e a capacidade operacional, logística e de infraestrutura das Forças Armadas. O primeiro passo formal dessa aproximação ocorreu em maio deste ano, quando a Universidade Federal do Pará (UFPA) e o Comando Militar do Norte reuniram-se para alinhar estratégias conjuntas de pesquisa, ensino e extensão. Durante esse encontro inicial, ressaltou-se o papel de redes como o Centro Integrado da Sociobiodiversidade Amazônia (CISAM) que reúne 13 universidades federais amazônicas, ao mesmo tempo em que se debateram gargalos históricos da produção científica local, como o isolamento geográfico, o custo de transporte, a disparidade de recursos e os desafios de segurança para pesquisadores em campo. A partir do mapeamento de prioridades e do alinhamento institucional, definiu-se a construção de uma agenda comum para conectar essas diversas realidades territoriais.
Como desdobramento dessa articulação contínua, a UFPA também sediou, na semana passada, o Painel Acadêmico da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), reunindo pesquisadores, autoridades acadêmicas e oficiais militares para debater a pauta ambiental e seus impactos na Defesa Nacional.

A vice-reitora da UFPA, professora Loriane Prado, ressalta que o trabalho conjunto viabiliza o avanço das pesquisas científicas em áreas de difícil acesso na Amazônia.
Cooperação científico-militar e capilaridade na Amazônia
A cooperação entre a maior universidade da Pan-Amazônia e o Exército Brasileiro constitui um eixo fundamental para o desenvolvimento regional. A vice-reitora da UFPA, professora Loriane Prado, ressalta que o trabalho conjunto viabiliza o avanço das pesquisas científicas em áreas de difícil acesso, associando o saber acadêmico à expertise militar no desbravamento do território.
”A Universidade Federal do Pará tem trabalhado em regime de cooperação com várias instituições, entre elas o Exército Brasileiro, que é importante neste processo porque estabelece como prioridade o desenvolvimento da Amazônia. Então, isso permite articular as nossas pesquisas também com a estrutura e a expertise do Exército no desbravamento dessas áreas, que também são estratégicas para a atuação da universidade”, destaca a vice-reitora.

Professor Leandro Juen falando sobre a importância de conhecer a biodiversidade da Amazônia para melhor protegê-la.
O desafio da biodiversidade e a sociobioeconomia
Apesar dos avanços da ciência nas últimas décadas, as lacunas de conhecimento sobre o patrimônio biológico amazônico ainda representam um desafio imenso. Segundo o professor Leandro Juen, docente da UFPA e coordenador das redes CISAM, INCT Síntese da Biodiversidade Amazônica (SIBIAM) e PPBio da Amazônia Oriental (PPBIO Amor), cerca de 40% da Amazônia ainda apresenta grandes lacunas de informação sobre sua biodiversidade, o que impacta diretamente as estratégias de conservação e as oportunidades de desenvolvimento sustentável para as populações locais.
”Ainda temos cerca de 40% da Amazônia com grandes lacunas de informação sobre a biodiversidade. E conhecer essa biodiversidade é fundamental para construirmos um desenvolvimento sustentável, especialmente a sociobioeconomia. Existe um enorme potencial para gerar conhecimento, inovação, renda e oportunidades, mas esses benefícios precisam chegar principalmente a quem vive na região. Ao mesmo tempo, temos na Amazônia instituições científicas altamente qualificadas. De acordo com um levantamento da Elsevier de 2024, a UFPA figura entre as principais instituições da Pan-Amazônia na produção de conhecimento sobre biodiversidade. Por isso, vemos com grande interesse a possibilidade de aproximar a capacidade científica das universidades da capilaridade, da infraestrutura e da presença territorial que o Exército possui na Amazônia. São competências diferentes, mas que podem ser muito complementares”, complementa o professor.

Professor Durbens Nascimento, destacou a tradição de cooperação institucional da universidade e seu papel estratégico para o conhecimento e defesa da Amazônia.
Parcerias, formação de políticas públicas e soberania
A articulação entre a UFPA e as Forças Armadas também fortalece a formulação de políticas públicas voltadas à proteção dos povos originários, das comunidades tradicionais e da integridade territorial. O professor e pesquisador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA), Durbens Nascimento, destaca a tradição de cooperação institucional da universidade e seu papel estratégico ao lado do Exército.
”A iniciativa de parceria e colaboração que a UFPA estabelece com outras instituições para a produção de conhecimento sobre a Amazônia é fundamental. A UFPA tem essa tradição de se desenvolver em todos os seus campos — ensino, pesquisa, extensão, administração e inovação — nessa perspectiva estratégica de parceria e cooperação. No caso do Exército, é fundamental porque também tem essa tradição e é profundo conhecedor da Amazônia. E a parceria leva ao aprofundamento da atuação de ambas, no conhecimento, no diálogo, na extensão e no subsídio de políticas públicas voltadas à proteção e à defesa dos povos da Amazônia, de sua biodiversidade e de suas fronteiras”, defende o professor.

Ao centro, a professora Ana Luiza Paiva, do Instituto Meira Mattos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (IMM/ECEME).
A Amazônia como centro do planejamento estratégico de defesa
Do ponto de vista militar e geoestratégico, a calha norte e o arco de fronteiras da Amazônia assumem centralidade nas preocupações de segurança do país. A professora Ana Luiza Paiva, do Instituto Meira Mattos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (IMM/ECEME), salienta que a formação acadêmica de mestres e doutores em Ciências Militares está fortemente orientada aos desafios amazônicos.
”A região amazônica, o arco norte da fronteira, é hoje a principal região, a mais estratégica em termos de defesa nacional. O Exército Brasileiro tem orientado todo o seu planejamento estratégico para essa região, e isso vai se desdobrar no desenvolvimento de pesquisas nessas áreas. Temos programas de pós-graduação em ciências militares voltados para o ensino e a formação de mestres e doutores e para a pesquisa no campo da defesa nacional, e a gente tem uma série de alunos com projetos de pesquisa voltados para a região, e a parceria com a universidade é muito importante neste sentido”, explica a professora.

Major Arthur Nunes e Silva, instrutor da ECEME, falando sobre a importância da integração com o setor de ciência e tecnologia.
Conhecimento multidisciplinar e planejamento operacional
A defesa soberana do território revela-se indissociável da compreensão ampla da realidade sociocultural, geográfica e econômica do país. O diálogo contínuo entre as Forças Armadas e a academia permite formar oficiais mais preparados para integrar variáveis socioambientais aos seus planejamentos estratégicos e operacionais.
Como reforça o Major Arthur Nunes e Silva, instrutor da ECEME, a integração com o setor de ciência e tecnologia tem como meta fazer com que os militares “identifiquem e analisem as características regionais e de que formas elas podem impactar o planejamento operacional. Então, o diálogo que a gente faz com a universidade, com o setor de ciência e tecnologia, com os outros campos do poder é fundamental para que os nossos alunos compreendam toda a grandeza do nosso país”.