UFPA e Universidade de Michigan consolidam parceria para a ciência na Amazônia

Durante cinco dias, pesquisadores, estudantes e representantes de instituições do Brasil e dos Estados Unidos se reuniram em Belém para discutir os impactos das mudanças globais sobre a biodiversidade e as florestas amazônicas e, sobretudo, para construir ferramentas e estratégias de pesquisa voltadas à realidade da região. Realizado de 10 a 14 de agosto, o workshop internacional “Biodiversidade e Transformações Florestais diante das Mudanças Globais: Ferramentas, Modelos e Cenários” marcou o início das atividades da Cátedra Fulbright na Universidade Federal do Pará (UFPA) e fortaleceu a cooperação científica com a Universidade de Michigan (EUA).

Para o professor Peter Reich, diretor do Instituto de Biologia das Mudanças Globais, da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan, a iniciativa representa o começo de uma relação que pode se tornar duradoura e dinâmica entre as duas instituições. “O workshop promovido em parceria entre o Centro Integrado de Sociobiodiversidade da Amazônia (CISAM), a Universidade Federal do Pará e o Instituto de Biologia das Mudanças Globais, da Universidade de Michigan, representa um primeiro passo empolgante no que esperamos ser uma relação duradoura e dinâmica”, afirmou.

Segundo Reich, a colaboração deverá envolver intercâmbio nas áreas de educação, pesquisa, extensão e comunicação, com o propósito de contribuir para o avanço da ciência e das políticas públicas em benefício das pessoas e da natureza na Amazônia.

Mais do que uma semana de aulas, o encontro buscou aproximar pesquisadores amazônicos de tecnologias e metodologias utilizadas internacionalmente, criando condições para que os próprios cientistas e instituições da região participem da formulação de perguntas, análises, modelos e soluções para seus territórios. A programação reuniu pesquisadores da UFPA e da Universidade de Michigan, além de participantes de outras instituições brasileiras e estrangeiras.

Para o coordenador do CISAM/UFPA, professor Leandro Juen, a aproximação cria oportunidades não apenas para pesquisas colaborativas, como também para a formação de pesquisadores e o desenvolvimento de ferramentas capazes de ajudar a compreender os efeitos das mudanças globais sobre os ecossistemas amazônicos.

Dados, tecnologia e conhecimento local

No primeiro dia, 10 de agosto, o workshop apresentou aos participantes conceitos e ferramentas para medir respostas ecológicas, avaliar os impactos das mudanças climáticas e analisar métricas de biodiversidade em diferentes escalas.

Entre os desafios discutidos estavam questões fundamentais para o futuro da região: quais áreas da Amazônia serão mais afetadas pelas mudanças climáticas? Onde a biodiversidade está sob maior risco? E quais paisagens devem ser priorizadas nas estratégias de conservação e restauração?

Para o pesquisador Thiago Gonçalves-Souza, da Universidade de Michigan, responder a essas questões exige grandes volumes de dados, modelos computacionais e, principalmente, pesquisadores preparados para interpretar a complexidade ecológica e territorial amazônica.

A formação também procurou inverter uma lógica histórica na produção científica sobre a região. Em vez de a Amazônia funcionar apenas como fonte de dados para pesquisadores externos, a proposta é ampliar a capacidade dos cientistas locais para formular perguntas, conduzir análises, construir modelos e liderar colaborações.

Essa aproximação foi considerada fundamental pelos participantes. O doutorando Jair Filho, do Programa de Pós-Graduação em Zoologia da UFPA, avaliou que o contato direto com pesquisadores que desenvolveram metodologias utilizadas em suas pesquisas contribuiu para esclarecer dúvidas e aprimorar teses e dissertações.

Um primeiro passo para uma nova cooperação

A importância institucional da iniciativa ganhou forma concreta no segundo dia do workshop, em 11 de agosto, quando UFPA e Universidade de Michigan assinaram um Memorando de Entendimento (MOU). O acordo amplia as possibilidades de colaboração em pesquisa, mobilidade acadêmica, formação de pesquisadores, intercâmbio de docentes e participação de pesquisadores visitantes.

A vice-reitora da UFPA, Loiane Prado Verbicaro, destacou que a universidade paraense é um centro de referência na produção de conhecimento sobre a Amazônia e que a parceria amplia sua inserção internacional. Para a pró-reitora de Relações Internacionais, Lise Tupiassu, a iniciativa também permite que a ciência seja construída “de dentro para fora”, aproximando a comunidade acadêmica amazônica de pesquisadores de outros países e ampliando a visibilidade internacional da produção científica da UFPA.

A assinatura ocorreu durante a sessão institucional “Fortalecendo a Colaboração Científica Brasil-EUA”, aberta à comunidade acadêmica, gestores públicos, imprensa e sociedade civil. O encontro discutiu o papel da ciência geoespacial e da cooperação internacional na governança ambiental da Amazônia.

Modelagem para antecipar cenários

No terceiro dia, 12 de agosto, o foco passou a ser a modelagem ecológica, apresentada pelo professor Kai Zhu, da Universidade de Michigan.

A atividade mostrou como dados, matemática e computação podem ser utilizados para simular diferentes situações e avaliar seus efeitos sobre plantas, animais e ecossistemas. Os participantes trabalharam com modelos relacionados à dinâmica das florestas amazônicas, ciclo do carbono, estrutura de habitats, incertezas climáticas e construção de cenários futuros.

Com a linguagem R e o pacote Tidyverse, os participantes analisaram modelos de biomassa florestal e compararam condições normais com cenários de seca, degradação e restauração.

O trabalho colaborativo também avançou na produção dos materiais que seriam apresentados no encerramento.

Da floresta ao consumidor: rastreando impactos

No quarto dia, 13 de agosto, o workshop ampliou o olhar para além da floresta e passou a acompanhar o percurso dos produtos até o consumidor. O professor Benjamin Goldstein, da Universidade de Michigan, apresentou conceitos de cadeias de suprimentos, avaliação do ciclo de vida e de pegada de carbono.

A proposta foi mostrar que os impactos ambientais de um produto não começam nem terminam na floresta. Uma peça de madeira, por exemplo, envolve uma trajetória que inclui extração, processamento, transporte, consumo de energia e emissões. O mesmo raciocínio pode ser aplicado a produtos como o açaí.

A avaliação do ciclo de vida permite justamente quantificar esses impactos e compreender como os sistemas de produção e consumo se relacionam às transformações ambientais. Na Amazônia, a metodologia ganha relevância diante da expansão das atividades produtivas e das commodities destinadas a mercados nacionais e internacionais.

Da teoria à prática – Os participantes aplicaram os conceitos em exercícios práticos de avaliação do ciclo de vida e de pegadas de carbono.

Para a professora Thaisa Michelan, do Instituto de Ciências Biológicas da UFPA, a combinação entre fundamentação teórica e prática aproxima os participantes de ferramentas úteis para pesquisas sobre sustentabilidade, cadeias produtivas e transformações ambientais.

A experiência também foi percebida como uma oportunidade de mão dupla. Para estudantes como Sarah Dias dos Santos, da UFPA, e José Alejandro Cuellar, doutorando colombiano do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPGECO/UFPA), o intercâmbio permite tanto apresentar pesquisas desenvolvidas na Amazônia quanto conhecer novas metodologias. Para o estudante de Michigan Dominick Stoops, a experiência de estar em Belém ajudou a compreender de perto a complexidade dos ecossistemas e os desafios enfrentados por quem pesquisa e vive na região.

Conhecimento e transformação

Ao longo da semana, os participantes foram organizados em grupos de trabalho para transformar os conteúdos aprendidos em produtos concretos. A proposta contemplou três possibilidades: a estrutura inicial de um artigo científico internacional, um policy brief bilíngue voltado a políticas públicas ou uma cartilha ilustrada para lideranças comunitárias e instituições locais.

A ideia foi fazer com que o conhecimento produzido no workshop ultrapassasse os limites da sala de aula e alcançasse a pesquisa, a formulação de políticas públicas e a sociedade.

A estudante Alexia Queiroz, da UFPA, destacou justamente essa combinação entre os conhecimentos disponíveis na Amazônia e as ferramentas apresentadas pelos pesquisadores estrangeiros. Para ela, a experiência permitiu criar uma pesquisa efetivamente colaborativa.

Encerramento com novos compromissos

Na sexta-feira, 14 de agosto, o workshop chegou ao fim com a apresentação dos resultados preliminares dos grupos e a definição dos próximos passos da cooperação.

O encerramento começou com uma palestra do diretor executivo da Fulbright Brasil, Luiz Valcov Loureiro, sobre oportunidades de cooperação acadêmica e de financiamento para pesquisa. Ele avaliou como exitosa a estreia da Cátedra Fulbright na UFPA e destacou seu potencial para a Amazônia.

Em seguida, os grupos apresentaram os produtos desenvolvidos ao longo da semana. O professor Thiago Gonçalves-Souza destacou a qualidade das propostas elaboradas em poucos dias, bem como o envolvimento dos participantes.

O encerramento não significou, portanto, o fim do trabalho. Participantes e organizadores estabeleceram prazos, atribuições e estratégias para a continuidade e publicação dos materiais, mantendo em andamento as frentes de pesquisa iniciadas durante o workshop.

A programação de cinco dias deixou, assim, mais do que novos conhecimentos e ferramentas. Deixou uma estrutura de colaboração que reúne UFPA, CISAM, Universidade de Michigan e Comissão Fulbright e que pretende fortalecer uma ciência produzida na e para a Amazônia, articulando tecnologia, conhecimento local, formação de pesquisadores e produção de informações capazes de apoiar decisões sobre o futuro da região.

A perspectiva resume o propósito da parceria: aproximar instituições, pessoas e metodologias para que a Amazônia não seja apenas objeto de estudo, como também um centro de produção científica, inovação e construção de respostas aos desafios ambientais que já transformam seus territórios.

Próximo evento da Cátedra 

O primeiro workshop evidenciou o potencial da Cátedra Fulbright para aproximar pesquisadores, instituições e diferentes áreas do conhecimento em torno dos desafios da Amazônia. A agenda terá continuidade nos próximos meses, com a realização do segundo workshop da Cátedra, em parceria com o Woodwell Climate Research Center. A iniciativa deverá ampliar a rede de colaboração, incorporando novas abordagens para o estudo da biodiversidade, dos ecossistemas e das transformações ambientais, além de fortalecer a formação de pesquisadores e a construção de projetos conjuntos. A expectativa é de que essas parcerias contribuam para o fortalecimento de uma ciência produzida na Amazônia, capaz de gerar conhecimento, inovação e soluções voltadas às demandas e aos desafios da região.

Sobre o centro de pesquisa Woodwell Climate

O Woodwell Climate Research Center é uma organização científica sem fins lucrativos que estuda as causas e os impactos das mudanças climáticas globais. A sede principal fica em Falmouth (Massachusetts), nos Estados Unidos.

Ana Teresa Brasil – ASCOM Ciência e Vozes da Amazônia