Tecnologias que analisam percursos de produção de produtos florestais estiveram em pauta

Imagine uma peça de madeira. Antes desse material chegar até uma fábrica de móveis, existe um caminho que precisa ser analisado. É importante destacar que não se trata apenas da madeira em si, mas de todo o percurso: de onde veio, como foi retirada da floresta, quanta energia foi gasta para processá-la, quanto combustível foi utilizado no transporte e quais foram as emissões de carbono associadas a esse processo.
A história citada é um exemplo de uma “cadeia de suprimentos”, um processo que tem sido analisado em pesquisas científicas sobre meio ambiente. Assim como a madeira, os estudiosos podem se interessar pelas cadeias de outros produtos, como a trajetória do açaí, desde a plantação até a chegada ao consumidor final, em uma polpa de fruta ou em um bombom. Em geral, essas são pesquisas que precisam utilizar uma grande quantidade de dados, ou seja, dependem de diferentes tecnologias como imagens de satélite, programas computacionais e inteligência artificial.
Cadeia de suprimentos foi um dos temas abordados nesta quinta-feira, 13 de agosto, durante o workshop internacional “Biodiversidade e Transformações Florestais diante das Mudanças Globais”, que reúne pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) e da Universidade de Michigan (EUA). As atividades fazem parte da programação da Cátedra Fulbright na UFPA e buscam ampliar a compreensão dos participantes sobre os desafios ambientais e de sustentabilidade associados aos sistemas de produção.

No quarto dia do workshop, as aulas foram ministradas pelo professor Ben Goldstein, da Universidade de Michigan. Durante a manhã, das 9h às 12h, os participantes discutiram como os sistemas de produção e as cadeias de suprimentos de produtos florestais estão relacionadas às mudanças ecológicas locais e aos desafios mais amplos da sustentabilidade.
Também foram discutidos os fundamentos da “avaliação do ciclo de vida”, abordagem que permite analisar os impactos ambientais associados às diferentes etapas de um produto, desde a obtenção da matéria-prima até seu processamento e utilização. A proposta é contribuir para uma visão mais ampla sobre as relações entre produção, consumo, recursos naturais e mudanças ambientais.

O professor Ben Goldstein detalhou a importância do método e como esse conceito torna-se relevante nas pesquisas realizadas na região. “Quando penso na ‘avaliação do ciclo de vida’, vejo-a como uma forma de ajudar os estudantes a compreender como as mudanças ambientais são impulsionadas pelos produtos que produzimos e consumimos. Trata-se de uma metodologia que permite analisar e quantificar os impactos ambientais associados aos produtos e aos sistemas”, destaca.
O docente explica que os temas abordados em Belém refletem diretamente as especificidades da região. “Para os estudantes, é uma introdução prática a essa metodologia, e isso é muito importante porque o que estamos vivenciando aqui na Amazônia, no estado do Pará, são mudanças ambientais que estão afetando as florestas e as terras da região. Grande parte dessas transformações está relacionada à produção de commodities destinadas ao consumo em diferentes partes do mundo”, destaca.
“Nesse sentido, a avaliação do ciclo de vida permite que as pessoas que vivem aqui, os estudantes e também as empresas e organizações da região, passem a compreender melhor como os produtos que consumimos e produzimos, além das commodities geradas localmente, podem contribuir para resultados ambientais mais positivos, tanto para o planeta quanto para as pessoas e as comunidades daqui”, ressalta.
Outro eixo trabalhado foi a contabilização de carbono, tema diretamente relacionado à compreensão dos impactos ambientais das atividades produtivas e à busca por estratégias mais sustentáveis para o uso dos recursos florestais.
Modelagem e prática
No período da tarde, das 14h às 16h, a programação ganhou uma dimensão prática com a apresentação de modelos de “avaliação do ciclo de vida” e de “pegadas de carbono”.
Os participantes realizaram um exercício utilizando software de planilha eletrônica para estimar os impactos ambientais associados a produtos florestais. A atividade permite aplicar, de forma prática, os conceitos apresentados durante a etapa teórica e compreender como diferentes dados podem ser utilizados na avaliação dos impactos de produtos ao longo de seu ciclo de vida.
Segundo a professora do Instituto de Ciências Biológicas (ICB/UFPA), Thaisa Michelan, “a combinação entre fundamentação teórica e exercícios práticos é importante para aproximar os participantes de ferramentas que podem ser utilizadas em pesquisas e análises relacionadas à sustentabilidade, às cadeias produtivas e às transformações ambientais, especialmente as que ocorrem na região amazônica”, salientou.
“Essa conexão entre pesquisadores da Amazônia e de outros países é enriquecedora, tanto pela oportunidade de mostrar os trabalhos que desenvolvemos aqui quanto pela possibilidade de aprender novas metodologias e aprimorar nossas pesquisas. Todo evento voltado para essa integração entre países e para a promoção da ciência é de grande importância, não apenas para a comunidade acadêmica, mas também para a sociedade em geral”, ressaltou Sarah Dias dos Santos, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Zoologia (PPGZOOL/UFPA).
Já o estudante colombiano José Alejandro Cuellar, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPGECO/UFPA), enfatizou que as contribuições do curso podem ser sentidas de forma individual e coletiva. “Essas experiências contribuem para enriquecer meu trabalho e gerar resultados relevantes, ampliando o conhecimento tanto na comunidade científica quanto nas comunidades diretamente envolvidas nesse processo de desenvolvimento na América Latina”, pontua.

“Essa é uma região que passa por um processo constante de desenvolvimento e crescimento econômico, que, ao mesmo tempo, pode impactar e ser impactado pela biodiversidade. Por isso, eventos como este são fundamentais para fortalecer as pesquisas sobre ecologia, biodiversidade e florestas, contribuindo para a construção de modelos de desenvolvimento socioeconômico mais sustentáveis e em equilíbrio com os sistemas naturais”, argumentou o aluno.
O estudante de mestrado da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade, da Universidade de Michigan, Dominick Stoops, comentou a relevância do intercâmbio para quem veio de fora. “Essa experiência permite vivenciar a Amazônia de perto, compreender melhor a complexidade de seus ecossistemas, conhecer diferentes perspectivas e interagir com pesquisadores e pessoas que vivem e trabalham na região. É também uma oportunidade de ampliar nossa experiência e compreensão sobre os desafios e as possibilidades de pesquisa na Amazônia”, concluiu.