Seminário debate Pan-Amazônia Pós-COP30 e alerta para crise do multilateralismo científico

A Universidade Federal do Pará sediou nesta quarta-feira, dia 04 de fevereiro de 2026, o Seminário “Panamazônia Pós-COP30: Geopolítica da Instabilidade, Soberania Nacional e Segurança Energética”, reunindo instituições acadêmicas, organizações sociais e representantes de países pan-amazônicos. O objetivo central foi analisar os desdobramentos políticos, ambientais e geoestratégicos na região após a COP30. A programação contou com debates analíticos e depoimentos de organizações e territórios, com desdobramentos nesta quinta e sexta (5 e 6 de fevereiro), quando os participantes se reúnem internamente para definir estratégias e proposições para o próximo “Colóquio Pan-Amazônico de Povos e Comunidades Tradicionais em Tempos de Ameaças aos Territórios”, em 2026.

Na cerimônia de abertura, na UFPA, o evento contou com participação de universidades, instituições de pesquisa e organizações sociais do Brasil, Equador, Colômbia, Peru e Suriname, com destaque para a anfitriã, a Universidade Federal do Pará. “Este é um momento muito necessário para pensarmos, com seriedade e visão estratégica, o futuro da nossa região. O encontro reforçou algo que considero essencial: a Pan-Amazônia precisa se enxergar como um território integrado, onde os países vizinhos se conheçam mais, dialoguem melhor e superem barreiras históricas de comunicação e cooperação, algo que ficou evidente até mesmo durante a COP30”, destacou Gilmar Pereira da SIlva, reitor da UFPA.

Também estiveram presentes representantes da Universidad Amawtay Wasi (Equador), Universidad Autónoma de Occidente (Colômbia), instituições de ensino superior do Peru, além de organizações representativas de povos e comunidades tradicionais da Pan-Amazônia.

Os debates do primeiro momento do seminário apontaram que, no período pós-COP30, a Panamazônia tem sido profundamente impactada por processos de violação da soberania nacional e pela emergência de novas formas de dominação política e militar. Foi destacado o avanço de práticas associadas ao chamado neoimperialismo, caracterizadas por ações unilaterais de potências globais, intervenções militares, bloqueios estratégicos e apropriação de recursos naturais em territórios soberanos.

“No Brasil, a recente derrubada dos vetos presidenciais relacionados ao licenciamento ambiental aponta para um momento delicado no debate sobre o uso e a proteção da Amazônia. Esse contexto dialoga com preocupações mais amplas sobre soberania nacional na Pan-Amazônia, especialmente diante de episódios de tensão política envolvendo Estados Unidos e países da região, como a Venezuela, que levantam questionamentos sobre o respeito aos princípios do direito internacional”, ressalta o antropólogo Alfredo Wagner (UEA/UEMA/UFAM).

Outro ponto destacado foi o enfraquecimento do multilateralismo científico, associado à redução da cooperação internacional e ao afastamento de importantes organismos vinculados às Nações Unidas, muitos deles fundamentais para a produção de conhecimento e o monitoramento das mudanças climáticas. 

“Nesse processo de multilateralismo científico, universidades públicas, instituições de pesquisa e movimentos sociais da região, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e diversos outros grupos, têm buscado manter sua autonomia e suas articulações. O seminário se insere nesse esforço coletivo, reunindo representantes de países da Pan-Amazônia como Brasil, Colômbia, Equador, Suriname e Venezuela, como parte de um processo preparatório mais amplo de articulação regional e debate sobre soberania, segurança energética e o futuro da Amazônia”, acentua Alfredo Wagner.

Segundo o professor, esse cenário tem repercussões diretas na pesquisa científica, no acesso a dados e no financiamento de estudos, afetando especialmente a Pan-Amazônia, marcando um cenário de instabilidade regional crescente. 

Depoimentos e vozes da Panamazônia

No segundo momento do seminário, foram apresentados depoimentos de organizações indígenas, associações comunitárias, entidades sindicais, coletivos de mulheres amazônicas e instituições acadêmicas do Brasil, Equador e Colômbia. As falas evidenciaram os impactos concretos da instabilidade geopolítica, da militarização e da exploração de recursos sobre os territórios, reforçando a necessidade de estratégias de resistência, solidariedade internacional e fortalecimento das redes panamazônicas.

No contexto pós-COP 30, o evento denuncia a frustração das populações tradicionais com os “não-acordos” firmados. “Antes da COP30, havia uma grande expectativa de que o evento pudesse garantir avanços concretos na proteção dos territórios e no reconhecimento de direitos historicamente reivindicados. No entanto, especialmente na Amazônia e no estado do Pará, essa expectativa acabou se transformando em frustração, uma vez que os povos que estão na base da defesa do território, da floresta, das águas e da vida não ocuparam o centro dos espaços de decisão”, frisou a cacica Miriam Tembé, liderança do povo Tembé, em Tomé-Açu (PA).

Para Miriam, diante desse contexto, o debate pan-amazônico ganha ainda mais relevância. “A realização de um novo encontro regional ocorre sob um clima de maior preocupação, marcado pelo avanço de conflitos, negociações e financiamentos que pouco dialogam com a garantia de direitos e com o enfrentamento efetivo da crise climática. A ausência de discussões consistentes sobre demarcação e titulação de territórios, aliada à autorização de atividades como mineração, exploração de petróleo e intervenções em rios amazônicos, evidencia que as decisões atuais caminham mais no sentido da ampliação da degradação do que da preservação da vida”, considera a cacica.

Realização

O seminário foi realizado por um conjunto de instituições acadêmicas e de pesquisa, entre elas o Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA), o Programa de Pós-Graduação em Cartografia Social e Política da Amazônia da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), o Instituto Federal do Amazonas (IFAM), programas de pós-graduação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidad Amawtay Wasi (Equador) e a Universidad Autónoma de Occidente (Colômbia).

Texto: Ana Teresa Brasil – Movimento Ciência e Vozes da Amazônia (UFPA)