Ciência alerta para impactos irreversíveis das mudanças climáticas sobre oceanos e Amazônia em seminário do The Conversation Brasil e Finep

Nesta terça-feira, 27 de janeiro, cientistas brasileiros que participaram da COP 30, na capital paraense, deram importantes contribuições em um seminário na sede da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), no Rio de Janeiro.

O evento intitulado “O Brasil Pós-COP30”, foi organizado pelo The Conversation Brasil, em parceria com a Finep, e colocou em pauta temas que envolvem as mudanças climáticas, preservação ambiental e gestão territorial, buscando responder principalmente: quais os impactos dessa grande conferência na Amazônia? e ainda, que medidas podem ajudar a prevenir e/ou mitigar os efeitos da emergência climática em nosso país? 
As boas-vindas foram dadas por Daniel Stycer, editor-chefe do The Conversation, instituição sem fins lucrativos presente em 12 países, com cerca de 1 milhão de leitores mensais. Já a abertura oficial foi realizada pelo presidente da Finep, Luiz Antônio Elias, que destacou a importância da agenda de ciência, tecnologia e inovação, aliada às análises sobre a relevância da COP 30 no Brasil.

O evento foi iniciado com o painel Terra, mediado por Ima Vieira, doutora em Ecologia pela Universidade de Stirling, pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi, membro titular da Academia Brasileira de Ciência (ABC) e assessora da presidência da Finep. A primeira painelista foi Thelma Krugg, líder do Conselho Científico da COP 30 e assessora para assuntos de emergência climática do presidente da Conferência, embaixador André Corrêa do Lago; seguida de Ana Luiza Coelho Netto, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Pedro Walfir: Doutor em Geologia e Geoquímica pela Universidade Federal do Pará; e finalmente, Marcos Barreto de Mendonça, Doutor em Geotecnia pela COPPE/UFRJ e professor do Departamento de Construção Civil da Escola Politécnica da UFRJ.

O geólogo Pedro Walfir, professor titular do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA), ressaltou que a transição energética é central no enfrentamento das mudanças climáticas, mas envolve contradições importantes. Embora seja vista como a principal estratégia para reduzir as emissões de CO₂ associadas ao uso de petróleo e gás, essa transição depende fortemente da produção de minerais estratégicos, o que implica impactos ambientais. Segundo ele, o mundo vive um paradoxo: nunca se produziu tanto petróleo, com mais de 100 milhões de barris por dia, ao mesmo tempo em que cresce a pressão por fontes energéticas mais limpas, em um cenário marcado por disputas geopolíticas entre grandes produtores de energia e tecnologia, como Estados Unidos e China.

No caso do Brasil, Walfir ressaltou que o país ocupa posição estratégica tanto na produção de minerais essenciais quanto de óleo e gás, além de contar com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, com forte participação de fontes renováveis. Ele observou que a mineração, apesar de gerar impactos ambientais, responde por uma parcela menor da supressão florestal quando comparada a outras atividades, como o agronegócio. Para o pesquisador, o maior desafio está no modelo de consumo da sociedade: as mudanças climáticas já são uma realidade, e enfrentá-las exige não apenas políticas globais, mas também transformação nos padrões de desenvolvimento, mobilidade, urbanização e educação, com lições importantes a serem aprendidas com os modos de vida menos intensivos em carbono presentes na Amazônia.

Ana Luiza Coelho Netto (UFRJ) detalhou estratégias científicas para redução de riscos de desastres. “A análise geoespacial é fundamental para entender como as mudanças climáticas estão alterando o território. Quando observamos a mudança da cobertura vegetal, por exemplo, ela está diretamente relacionada ao uso do fogo, que fragiliza o solo e aumenta a vulnerabilidade das encostas”, explica Ana Luiza Coelho Netto, do Instituto de Geociências da UFRJ. Segundo a pesquisadora, o desenvolvimento de equações de previsão de risco de deslizamentos de terra permite antecipar cenários de desastre, mas esse trabalho não pode se limitar apenas aos aspectos naturais. “É muito importante combinar as condições ambientais com as condições sociais, porque o risco não é apenas físico, ele também é socialmente construído”, afirma.

A pesquisadora destaca ainda que a revegetação florestal é uma ferramenta essencial para a redução desses riscos, mas exige tempo e planejamento. “A recuperação de uma área degradada não é imediata. Dependendo do nível de degradação, pode levar anos ou décadas para que a vegetação volte a cumprir seu papel de estabilização do solo”, conclui.

Painel Água

O painel Água contou com a mediação de Luciana Julião, coordenadora de redes sociais da UFMG e editora de ambiente do The Conversation Brasil. Os palestrantes foram Letícia Cotrim, doutora em Oceanologia pela Universidade de Perpignan (França), e professora Associada da Faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Nils Edvin Asp Neto, oceanógrafo e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA), um dos maiores especialistas no cinturão de manguezais da Foz do Rio Amazonas;  Mariana Bender, bióloga, professora e pesquisadora do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM); e Wenceslau Geraldes Teixeira, doutor em geoecologia pela Universidade de Bayreuth, Alemanha, e pesquisador da Embrapa.

O professor Nils Asp (UFPA) ressaltou que a Amazônia precisa ser entendida como um território complexo, que vai muito além da floresta. “A Amazônia também é água, é oceano, é cidade, é gente. Mais de 20 milhões de pessoas vivem aqui e não podemos tratar a região como um espaço intocado, sem população ou atividade socioeconômica”, afirmou. Para ele, um dos principais legados da COP30 foi ampliar uma visão mais realista da Amazônia, valorizando o conhecimento produzido por pesquisadores que vivem e trabalham na região.

O oceanólogo também alertou para os riscos da desregulação climática e para a perda da capacidade dos oceanos de regular o clima. “O oceano já está aquecendo, acidificando e perdendo oxigênio, o que compromete sua função de estabilizar o sistema climático”, disse. Nils chamou atenção ainda para a descarga do rio Amazonas, responsável por até 20% da água doce que chega aos oceanos, e criticou o que chamou de “conformismo climático”. “Saímos do negacionismo, mas entramos numa fase perigosa de aceitação passiva. Sem políticas de Estado de longo prazo, a adaptação às mudanças climáticas fica comprometida”, concluiu.

A pesquisadora Letícia Cotrim afirmou que é fundamental aproximar a ciência da sociedade para enfrentar a crise climática. “Muitas vezes, quando falamos de mudanças climáticas, as pessoas sentem uma ansiedade enorme, como se o problema fosse grande demais e sem solução. Mas as respostas existem, estão sendo pensadas e desenvolvidas pela ciência, muitas delas de forma local, e precisam chegar à população”, destacou. Segundo ela, projetos de divulgação científica ajudam a transformar angústia em ação concreta e engajamento social.

Ao tratar dos oceanos, Letícia enfatizou que as mudanças climáticas já provocaram alterações profundas e duradouras. “O oceano está mais quente, mais ácido, com menos oxigênio e o nível do mar já está subindo. Mesmo que zerássemos hoje as emissões, levaríamos milhares de anos para retornar às condições pré-industriais”, explicou. Para ela, em um país como o Brasil, onde grande parte da população vive em áreas costeiras e cerca de metade do território é mar, os impactos da elevação do nível do mar representam um desafio urgente, que exige políticas públicas de adaptação baseadas em ciência e justiça social.

Serviço:

O evento “Brasil Pós-COP: Os desafios da Ciência no dilema entre a redução dos impactos das mudanças climáticas e a manutenção do crescimento econômico”, pode ser revisto na íntegra aqui

Texto: ASCOM – Ciência e Vozes da Amazônia

Fotos: The Conversation Brasil