UFPA promove workshop sobre protagonismo feminino na preservação das águas amazônicas

A Universidade Federal do Pará (UFPA) sediou, nesta segunda-feira (25), o workshop “O Feminino nas Águas: Saberes e Conexões”, realizado em parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), o Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD) e a Embaixada da França no Brasil.

O encontro integrou as ações do projeto Fefaccion – Mudanças Climáticas: Agindo juntos na Amazônia, lançado em julho de 2024 pela UFPA, em parceria com instituições francesas e o Centro de Cooperação Internacional de Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento (CIRAD). As mesas-redondas destacaram o papel das mulheres na preservação dos rios amazônicos, em um contexto marcado por secas, inundações e poluição industrial, fatores que comprometem a saúde e a segurança das populações locais.

Na coordenação do evento, a professora Silvana Veloso, do Instituto Socioambiental e dos Recursos Hídricos da UFRA, ressaltou a importância de integrar diferentes saberes. “Trazer as vozes dessas mulheres, que têm uma vivência completamente diferente com a água e fazem dela o seu meio de sustento, é essencial. Elas cuidam da família, cozinham, trabalham e acumulam conhecimentos e conexões que precisam ser ouvidos pela academia”, afirmou. Ela pontua a relevância dessa integração para a elaboração de ações futuras. “Isso nos ajuda a identificar vulnerabilidades, traçar caminhos e compreender melhor onde devemos atuar”, destacou.

Representando o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a coordenadora regional Sueyla Malcher abordou a dimensão internacional das lutas populares. “Nós temos uma solidariedade internacional. Atuamos em todo o Brasil, mas também construímos alianças com atingidos em outros países, fortalecendo a organização na América Latina e em outros continentes”, explicou. 

Segundo Sueyla, as mulheres são as principais impactadas pelos grandes projetos de produção de energia, pois enfrentam diretamente as consequências sociais, econômicas e ambientais desses empreendimentos. No evento, ela mostrou algumas obras de artesanato produzidas por grupos femininos que denunciam explorações e também as tragédias socioambientais que enfrentam. “Para dar visibilidade a essas vivências, utilizamos as arpilheiras – técnica de bordado que surgiu no Chile como forma de denúncia contra a violência e os ataques à democracia – e que hoje também é adotada no Pará, em regiões como Tucuruí, para expressar as lutas feministas e a resistência das atingidas.”

O representante do IRD no Brasil, Abdel Sifeddine, enfatizou a relevância da cooperação bilateral. “Este evento trouxe ideias importantes para a construção de soluções concretas na gestão das águas. É uma honra participar com duas universidades de peso, a UFPA e a UFRA. As conclusões aqui discutidas serão levadas para a COP, como exemplo para outros países”, afirmou.

Já Elodie Grizard, da Embaixada da França no Brasil, destacou a pertinência do tema. “As questões debatidas neste workshop são atuais e estratégicas para a cooperação científica. Trabalhar a relação entre proteção das mulheres, preservação e gestão das águas é fundamental para enfrentarmos os desafios da Amazônia”, declarou.

Fefaccion – O Projeto Fefaccion é uma iniciativa franco-brasileira voltada ao enfrentamento das mudanças climáticas na Amazônia. Suas ações incluem formação, intercâmbio científico, apoio a projetos de pesquisa e mobilidade acadêmica, com atuação nos estados do Pará, Amazonas, Amapá, Tocantins e Mato Grosso.

Programação – A pesquisadora Amanda Vicentini, da PUC Paraná, abriu os trabalhos com a reflexão “Mística das águas: a relação cultural e simbólica da mulher com a água”. Em seguida, Valdenira Ferreira dos Santos, do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA), tratou da troca de saberes entre pesquisadoras e ribeirinhas, enquanto Verônica Bitencourt, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS), destacou o protagonismo feminino na gestão das águas.

Já a mesa-redonda “Sociedade civil e movimentos sociais femininos: o poder das águas e suas influências”, foi moderada por Ana Lídia Cardoso do Nascimento (UFRA), e contou com a participação de Claudete Barroso, integrante do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Marapanim; Adenilse Borralhos, pescadora e presidenta do Movimento de Mulheres da Vila de Espírito Santo do Tauá; Carlene Printes, da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Pará (MALUNGU); e Sueyla Malcher Bezerra, da Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Na segunda parte da programação, a professora Vania Neu (UFRA) apresentou a palestra “Saneamento, tecnologias sociais e mulheres”, seguida por Andréa Carneiro, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que abordou a presença feminina em contextos de vulnerabilidade, como campos de refugiados africanos e o sertão pernambucano. Na sequência, a prefeita de Presidente Venceslau (SP) e presidenta do Comitê de Bacia do Pontal do Paranapanema, Bárbara Vilches, tratou do papel das mulheres nos Comitês de Bacias Hidrográficas.O encerramento ficou por conta da mesa-redonda “Atuação das instituições públicas na gestão das águas”, moderada por Aline Meiguins (UFPA). Participaram Herena Maués, do Ministério Público Federal (MPF); Renata Maranhão, da Agência Nacional de Águas (ANA); Tatiana Costa, da Companhia de Saneamento do Pará (COSANPA); e novamente Verônica Bitencourt, da SEMAS, reforçando a importância das políticas públicas na preservação e gestão dos recursos hídricos da Amazônia.

Texto e imagens: Ana Teresa Brasil